O Chão

 “A infância é um chão que pisamos a vida inteira.”

Essa é uma frase clichê, dessas que a gente vê repetida em posts e vídeos do TikTok, dita com uma facilidade que quase não dói. Mas esses dias, em um dos meus desabafos constantes com a Amandinha, ela voltou diferente. Voltou pesada. Voltou real.

Nos últimos dias, tenho me sentido frustrada com a experiência de voltar a morar com meus pais. Existem muitas coisas boas, inegáveis, mas as ruins também vêm à tona. E vêm com força. Elas criam uma sobrecarga emocional que me faz, sem querer, reencontrar a pequena Nicoli que fui. Às vezes eu conto essas histórias rindo, transformo tudo numa grande piada, e chego a chorar de tanto rir. Mas só eu sei o peso que cada risada carrega no final.

Talvez seja porque eu ainda não lidei cem por cento com o meu passado. Talvez eu nunca lide. Ou talvez seja só a vida adulta de todos nós dando um “alô”, avisando que crescer também é revisitar lugares que a gente achou que tinha deixado para trás.

E voltando ao chão que pisamos… às vezes ele retorna como lama, daquela que gruda no sapato num dia qualquer, e em algum momento você vai ter que parar, respirar e lidar com isso com muita água e sabão. Outras vezes, ele é árido, seco, e mancha sua calça branca de vermelho sem pedir permissão. No fim, isso só prova que, independente do tipo de solo, ele continua sendo o chão que vamos pisar a vida inteira.

Eu ainda estou aprendendo como lidar com isso. E tudo bem.

Esse texto não é sobre ingratidão. Até porque, sim, essa também é a primeira vida dos nossos pais. Mas reconhecer isso não apaga as experiências ruins, nem invalida os sentimentos que elas deixam. Existem coisas boas, memórias bonitas, afetos reais, mas hoje, as frustrações falam mais alto. E talvez por isso elas tenham ficado aqui, no papel, enquanto o resto fica guardado.

Quem sabe no próximo texto.

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