Entre Marés e Memórias: Uma Beautiful Mess

Ontem me permiti sentir. E talvez isso seja a coisa mais difícil de fazer quando se está tentando sobreviver.

Comecei a ler A Playlist da Minha Vida, da Abby. Cada capítulo começa com uma música, e isso me pareceu cruel de um jeito bonito. Porque às vezes uma canção fala antes da gente conseguir dar nome ao que está dentro. Foi assim com “A Beautiful Mess”, do Jason Mraz. Deixei ela tocar enquanto as palavras escorriam.

Desde que cheguei em Monte Mor para as férias, eu já sabia. Sabia que o choro estava entalado, como uma gripe que não sai. Instalado, firme, fazendo parte da rotina. Mas ainda assim, invisível. Ainda assim, contido. E talvez vá durar um tempo. Ou muito tempo. Ou talvez sempre esteja ali, mesmo que um dia eu volte a sorrir sem culpa.

Estou em casa, ou pelo menos no que deveria ser casa. Mas não durmo no meu quarto. Digo que é pelo colchão, velho demais, que machuca as costas... Mas no fundo, é porque o escuro dele me assusta. Me parece cheio demais de ausência. Me engoliria inteira se eu deixasse. Prefiro o sofá, onde o barulho da TV e o movimento dos outros fingem que ainda tem vida por aqui.

No capítulo do livro de hoje cedo, a protagonista decide doar as coisas do noivo que morreu. Dois anos depois. Em sacos. Em silêncios. Em lembranças que cheiram a roupa guardada. Me pergunto se estou atrasada ou adiantada no meu luto. Me pergunto se me enganei achando que estava pronta pra voltar.

A resposta é sim.

Ontem, meu irmão disse que o meu macarrão estava com o gosto igual ao dela. E eu chorei. Não por tristeza, mas por reconhecimento. Porque talvez eu seja mais parecida com ela do que eu sabia. Porque talvez, em mim, ela ainda exista. E isso dói de um jeito estranho, como se a saudade tivesse gosto e cheiro.

Essas férias... eu queria ser sofá. Me fundir a ele. Sumir nas almofadas e fingir que estou descansando, quando na verdade só quero não existir por uns dias. Finjo estar bem. Forço sorrisos. Voltar pra rotina de casa parece automático, mas meu olhar está distante. Eu falo pouco. E quando falo, não é sobre o que importa.

Sinto como se estivesse dentro de um mar sem direção. A maré virou. Meu coração também. E tudo desfigurou.

Mas sigo aqui.

E talvez um dia isso melhore.

Ou talvez eu apenas aprenda a dançar com a bagunça bonita que ficou.

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